Há 18 anos, ainda criança, Victor Augustho Barbosa Pereira pisava no gramado do Morenão ao lado do pai, o árbitro Marcos Mateus Pereira, durante um amistoso entre Corinthians e Cene, em Campo Grande. Naquela época, talvez não imaginasse que um dia também vestiria o uniforme da arbitragem e dividiria com o pai a responsabilidade de conduzir uma partida oficial.
Esse momento chegou. Nesta quarta-feira (28), às 19h30, no Estádio Jacques da Luz, em Campo Grande, pai e filho estarão juntos, pela primeira vez, em uma equipe de arbitragem. Marcos será o árbitro central do confronto entre São Gabriel e C.E.U. ABC, pela primeira rodada da Copa MS, enquanto Victor atuará como quarto árbitro.
Mais do que uma escala, o encontro representa a realização de um sonho, a continuidade de uma história familiar e a paixão pelo futebol que atravessa gerações.
Uma paixão que passou de pai para filho
A trajetória de Marcos na arbitragem começou em 2000, quando ainda cursava Educação Física. Na época, a atividade surgiu como uma oportunidade de ajudar a custear os estudos. O que inicialmente era uma necessidade financeira acabou se transformando em uma escolha de vida.
“Com o passar dos anos, aquilo que começou como uma necessidade se transformou em uma grande paixão e em uma parte muito importante da minha vida”, conta Marcos.
Foram anos de dedicação, treinamentos, estudos e partidas que também fizeram parte da infância de Victor. Acostumado a acompanhar o pai nos estádios, o filho cresceu observando de perto uma profissão que exige preparo físico, conhecimento das regras, disciplina e equilíbrio emocional.
“Meu pai é um cara que tem 26 anos trabalhando com arbitragem e eu sempre conheci meu pai árbitro. A inspiração maior é ver a dedicação que ele tem ao treinamento, ao alto rendimento, o tanto que ele estuda e se dedica”, destaca Victor.
A admiração se transformou em escolha. Em 2023, Victor começou a apitar informalmente partidas entre amigos e jogos de bairro. A experiência com o futsal e a convivência com o universo da arbitragem despertaram o interesse pela profissão.
No ano seguinte, após conversar com o pai, ingressou no curso de formação de árbitros da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS).
Ainda em 2024, fez sua estreia como árbitro central em uma partida do Campeonato Estadual Sub-15, entre Portuguesa e Coxim. Foi naquele momento que teve a certeza de que queria seguir os passos do pai.
“Depois do jogo, eu tive a plena certeza de que era ali que eu queria estar”, relembra.
A partir daí, intensificou os treinamentos, o estudo das regras e a preparação física. Em 2025, participou da pré-temporada e atuou em competições das categorias de base. Em 2026, após aprovação nos testes físicos e teóricos, passou a integrar o quadro estadual de árbitros, com atuação em diferentes categorias, da base ao futebol profissional.
O orgulho de dividir o mesmo campo
Para Marcos, que construiu uma carreira de mais de duas décadas na arbitragem, a escala desta quarta-feira tem um significado que vai além da experiência profissional. É a oportunidade de acompanhar o filho em campo, agora como colega de equipe.
“Mais do que dividir uma escala, estamos compartilhando gerações, sonhos e uma paixão pela arbitragem”, afirma o pai, que considera o momento um dos mais marcantes de sua carreira.
Para Victor, a emoção também vem acompanhada da oportunidade de aprender com quem sempre foi sua maior referência.
“É completamente diferente. Você vê ele atuando ali e estar com ele no campo, saber como ele se comunica, como ele fala com os jogadores”, destaca.
Mas, quando a bola rolar, pai e filho sabem que a emoção dará lugar à concentração e à responsabilidade de conduzir a partida.
“Ali dentro, rolou a bola, chegamos para fazer o jogo, o nosso foco vai ser 100% no jogo. Ali dentro vai ser o árbitro central Marcos Mateus e o quarto árbitro, Victor Augustho, apenas com foco em entregar o jogo limpo e o nosso melhor lá dentro”, afirma Victor.
Duas gerações, a mesma paixão
A história de Marcos e Victor também revela uma dimensão da arbitragem que nem sempre aparece para o torcedor: por trás do uniforme, do apito e das decisões dentro de campo, existem histórias de vida, famílias, sonhos e exemplos que inspiram novas gerações.
Nesta quarta-feira, no Estádio Jacques da Luz, o menino que um dia acompanhou o pai no gramado do Morenão estará novamente ao lado dele. Desta vez, não apenas como filho, mas como profissional da arbitragem.